domingo, 6 de março de 2016

Breve história do Cristianismo na China

São Tomé, o Dídimo
Apóstolo São Tomé

Segundo a tradição cristã, o apóstolo São Tomé, aquele que disse que tinha de ver para crer, teria visitado a China no século I e a comprovar isso existem pedras gravadas com desenhos em baixos-relevos de histórias bíblicas dessa data. São Tomé foi dos poucos primeiros missionários que partiram para o Oriente com a missão de evangelizar, tendo, por volta dos anos 50 do século I, saído de Jerusalém e navegado pelo Mar Vermelho até à Índia.
Judas "Dídimo" Tomé, que era um dos doze discípulos de Jesus Cristo, encalhou na ilha de Socotorá e por lá ficou a converter e a baptizar os moradores. Depois embarcou para o estreito da Pérsia onde cristianizou Partos, Persas e Medos. Passando pelo Mar Arábico, chegou a Malabar, no sudoeste da Índia, e de acordo com uma lenda registada em Edessa, foi comprado por um mercador indiano de nome Abbanes por três lingotes de prata e levado para a Índia onde ficou ao serviço do rei Gondopharès, que acabou por se converter ao Cristianismo, antes de rumar à China. Ainda assim o martírio do apóstolo deu-se na Índia, às mãos dos hindus, no ano de 72.
No século XVI, quando os portugueses chegaram à região de Malabar, estes disseram ter descoberto a cripta do santo, as suas relíquias e, inclusive, um pedaço de uma das lanças que trespassaram o seu corpo e ainda com o sangue coagulado. O tsunami de 2004, que devastou toda aquela região, não afectou a igreja que guarda as relíquias de São Tomé. Segundo uma antiga tradição, São Tomé fixou um poste que limitaria até ao fim dos tempos as águas, que jamais o ultrapassariam. Isso fez com que os sacerdotes hindus, desconcertados, prometessem não mais perseguir e discriminar os cristãos de Malabar.

Anunciação do anjo a Maria
A seita nestoriana

O historiador chinês Wang Weifan, mestre estudioso da História do Cristianismo Primitivo assim como de Arte e Cultura Chinesa, ao analisar as pedras em baixo-relevo de dois túmulos da dinastia Han do Leste (25-220) encontradas em Xuzhou, na província de Jiangsu, descobriu nelas representados episódios bíblicos. Se os estudos provarem que Wang Weifan tem razão, então confirma-se a chegada do Cristianismo à China no final do século I, 500 anos antes do que até hoje se pensava.
Na verdade, já existiam pseudo-cristãos como os nestorianos ou os monofisistas - os antepassados das seitas protestantes - tanto no sul da Índia, como na Geórgia, Arménia e também na China, tendo os nestorianos sido pela primeira fez referenciados em 552 durante o reinado bizantino do imperador Justiniano (527-565). Estes foram autorizados a viver na China pelo imperador Tai Zong (626-649) no ano de 635, como consta numa estela encontrada perto de Chang'an (Xian) e que actualmente está no Museu da Floresta de Estrelas. Esta estela foi traduzida pelos padres jesuítas portugueses Álvaro Semedo (1586-1657) e Manuel Dias Júnior (1574-1659), que se revelou efectivamente nestoriana e que os precedia 1000 anos. A diocese de Macau reconheceu a descoberta da estela como um "claro testemunho da existência do Cristianismo na China, apresentando uma narração sumária da propagação do Evangelho neste país desde o ano de 635 até 781 da nossa era", apesar dos nestorianos serem uma seita herética criada por Nestório, patriarca de Constantinopla entre 428 e 431, e que separava as duas natureza de Jesus Cristo, o que entrou em conflito com alguns dos mais proeminentes líderes da Igreja Primitiva, como São Cirilo de Alexandria que criticou Nestório por negar que Maria é Mãe de Deus, conforme está escarrapachado no Evangelho de São Lucas, coisa que foi herdada pelo protestantismo actual. Juntamente com o nestorianismo emergiu o monofisismo, que é a sua antítese e que afirma que Jesus Cristo só tem uma natureza, a divina. Nestório acabou por ser excomungado em 431 e exilou-se para o Egipto, mas a sua seita expandiu-se para a Pérsia, que acolhia os nestorianos expulsos do Império Romano. Quando este adoptou o Cristianismo, os persas começaram a considerar os cristãos como inimigos e perseguiram-nos, o que os levou a fugir para mais longe, para a Índia e para a China.
Em 845, o imperador Wu Zong da dinastia Tang decidiu proibir as religiões estrangeiras na China e os nestorianos voltaram a fugir, agora para as estepes do norte, juntando-se a algumas tribos mongóis que acabaram por se converter. A comprovar isso está uma pedra com o nome de quatro monges nestorianos que foi encontrada no templo budista Yunju, no distrino de Fangshan, nos subúrbios de Pequim, bem como um documento árabe que fala de dois monges vindos de Pequim que chegaram à Pérsia em 1275. Os nestorianos acabaram por ser substituídos nas costas indianas pelos muçulmanos, tendo sido exterminados também na Síria e na Pérsia pela expansão islâmica. No entanto, continuaram a existir na Índia e na China até ao século XVI.

Episódio bíblico chinês
Catolicismo na China

Os primeiros registos da entrada de missionários católicos na China datam do século XIII, durante a dinastia Yuan. O Papa Inocêncio IV em 1245 designou como embaixador ao Khan dos mongóis o franciscano Frei Lourenço de Portugal, que tinha sido ministro da província de Santiago de Compostela, mas este não pôde ir porque estava como penitenciário apostólico em S. João de Latrão, onde passou dois anos como legado apostólico no Oriente, durante o conflito que se instalou entre Roma e Bizâncio, e só regressou à Santa Sé em 1248. Por isso, o mesmo Papa pediu ajuda aos franciscanos acabando por enviar à China o italiano Giovanni del Carpine, em 1245, acompanhado pelo boémio Estêvão e o polaco Bento à corte mongol, tendo lá chegado um ano depois.
Como os mongóis, que eram animistas, eram bastante tolerantes para quem aceitava a sua soberania, tantos os católicos como os nestorianos puderam expandir-se pela Ásia até meados do século XIV. O primeiro Papa franciscano, Nicolau IV, escolheu o também franciscano italiano Giovanni de Montecorvino, "enviando-o como legado e núncio da Santa Sé e cheio de presentes e revestido de toda a autoridade para tratar com o Grande Khan. Partiu para a sua viagem em 1291, munido de cartas para o Khan Argun, para o grande imperador Kublai Khan, para Kaidu, príncipe dos tártaros, para o rei da Arménia e para o patriarca dos jacobitas. Os seus companheiros eram o dominicano Nicolau de Pistoia e o comerciante Pedro de Lucalongo" (Pe. Manuel Teixeira). Giovanni de Montecorvino foi o primeiro missionário católico na China e foi encarregue pela Santa Sé para missionar no Oriente, começando na Pérsia e daí, "por mar para a Índia onde pregou por treze meses e baptizou umas cem pessoas. Aqui lhe morreu também o seu companheiro Nicolau. Viajando de Meliapor por mar, alcançou a China em 1294, vindo a saber então que Kublai Khan tinha morrido e Timurleng sucedera no trono. Este, (o imperador Cheng Zong) não abraçou o Cristianismo, contudo não pôs obstáculos ao zelo missionário que ali se estabeleceu e pôde pregar livremente o Evangelho. A despeito da oposição dos nestorianos, Montecorvino depressa ganhou a confiança do imperador e em 1299, oito anos depois de ter partido da Europa e seis após ter entrado na China, pôde construir uma igreja em Dadu (Grande Capital, hoje Pequim), tendo já a esta data baptizado seis mil cristãos. Em 1305 levantou uma segunda igreja mesmo em frente do palácio do imperador, juntamente com oficinas e habitações para duzentas pessoas. Aqui reuniu cerca de cento e cinquenta rapazes, de sete a onze anos de idade, ensinou-lhes latim e o grego e estabeleceu as horas canónicas cantadas, como nos seus conventos da Europa, com grande gosto do imperador, que se deleitava a ouvir as vozes melodiosas das crianças. Eram também estas crianças que faziam o ofício de acólitos, ajudando à missa" (Pe. Manuel Teixeira). Giovanni da Montecorvino traduziu o Novo Testamento e os Salmos para o chinês e evangelizava nessa língua, sendo frequentemente alvo de calúnias nestorianas. Graças à confissão de um nestoriano, o imperador reconheceu a falsidade das acusações e desterrou os acusadores. Em 1307, o Papa Clemente V fez de Giovanni de Montecorvino arcebispo de Pequim. Apesar da oposição nestoriana, o Catolicismo expandiu-se no norte e no leste da China, chegando até à ilha da Formosa, actual Taiwan, e Xiamen. Segundo a tradição, Giovanni de Montecorvino teria convertido também o Grande Khan e o imperador mongol Khaishan Kuluk. Depois da sua morte, em 1328, o Grande Khan Toghun Temur, o último imperador mongol da China, pediu ao Papa o envio de um total de 50 eclesiásticos para Pequim, mas a queda do império mongol e a implementação da dinastia Ming culminou na expulsão dos mongóis da China e, consequentemente, dos cristãos. A Bíblia só acabou por ser totalmente traduzida para o chinês em 1968, através doutro franciscano, Gabriele Allegra.

Matteo Ricci ficou em Pequim até morrer
Pe. Matteo Ricci

Durante o período da Contra-Reforma Católica, foi a vez dos jesuítas entrarem na China. Entre eles destaca-se o italiano Matteo Ricci (1552-1610), que contribuiu de modo fulcral para a introdução do Catolicismo na China. Considerado pelos próprios chineses como "um dos mais notáveis e brilhantes homens da História" e como "o mestre do grande Ocidente", Ricci fascinou os chineses pelo seu grande interesse, admiração e respeito pela cultura chinesa e também pelo seu vasto saber em várias áreas do conhecimento, como a matemática, a astronomia, a literatura, a poesia, a arte ou a música. Ricci entendia que os ritos e costumes chineses não colidiam com a doutrina católica, apesar de terem forte cunho budista, e escreveu o célebre catecismo "Verdadeira Noção de Deus" de modo a fazer com que os chineses que o lessem conseguissem abrir as suas mentes à cultura ocidental. Morreu com 57 anos, em 1610, em Pequim, onde foi sepultado após autorização do imperador. Um raro privilégio, visto que os estrangeiros que morressem na China tinham na altura que ser sepultados em Macau governado pelos portugueses. Para a memória dos chineses ficam a admiração e o respeito pelo sacerdote que "enquanto professava uma admiração sincera pela China, levava os chineses a vislumbrarem que ainda existia algo que eles não conheciam, e que ele era capaz de lhes ensinar".
O Papa Bento XVI, em 2010, durante as celebrações dos 400 anos da morte de Ricci, afirmou que ele "constitui um caso singular de feliz síntese entre o anúncio do Evangelho e o diálogo com a cultura do povo ao qual Ele é levado, um exemplo de equilíbrio entre clareza doutrinal e obra pastoral prudente. Não apenas a profunda aprendizagem da língua, mas também a assunção do estilo de vida e dos costumes das classes cultas chinesas, fruto de estudo e de exercício paciente e clarividente, fizeram com que padre Ricci fosse aceite pelos chineses com respeito e estima, não como um estrangeiro, mas como o 'mestre do grande Ocidente'".

120 mártires chineses foram canonizados
Expansão do Cristianismo

Após a morte de Ricci, e durante a dinastia Qing, os jesuítas continuaram a sua missão, conseguindo tornar-se parte importante da burocracia imperial. Os missionários conseguiram estabelecer-se em várias cidades chinesas e converteram muitos chineses: em 1617, a Igreja contava com 13 mil convertidos; em 1650, já conseguiu 150 mil novos convertidos; e de 1650 até 1664, o número de convertidos aproximava-se dos 255 mil. Em 1650, abriu-se a primeira igreja pública em Pequim, cuja construção foi financiada pelo imperador Shunzhi. Esta igreja, construída no sítio onde esteve a primeira capela de Pequim (construída por Matteo Ricci), tornou-se mais tarde na catedral da Imaculada Conceição, que é a actual sede da arquidiocese de Pequim.
Em 1692, o imperador Kangxi publicou o Édito de Tolerância ao Cristianismo, que concedia a liberdade religiosa aos católicos. Devido ao grande dinamismo e crescimento da Igreja chinesa, o vicariato apostólico de Nanquim foi eregido em 1659 pelo Papa Alexandre VII, a partir da diocese de Macau. E, em 1690, o Papa Alexandre VIII promoveu este vicariato a diocese de Nanquim e, a partir do vicariato apostólico, erigiu a diocese de Pequim. A partir desta profunda restruturação eclesiástica, o território chinês passou a ser servido e abrangido por três dioceses: Nanquim, Pequim e Macau, todas elas vinculadas ao padroado português e dependentes da arquidiocese de Goa.
Apesar das rivalidades entre países europeus e ao enfraquecimento de Portugal devido às políticas anti-clericais, que fizeram com que a influência portuguesa ficasse circunscrita mais tarde apenas à diocese de Macau, a evangelização continuou a dar-se na China, desta vez com os franceses e com os alemães, até que se deu a "controvérsia dos ritos na China" por causa da conciliação da prática dos ritos chineses e do confucionismo com o Catolicismo, o que pôs as ordens religiosas, como os dominicanos, umas contra as outras, agora já também com os espanhóis, provenientes das Filipinas no século XVII, metidos ao barulho. A controvérsia, que levou às condenações papais, levou o imperador Kangxi a proibir as missões cristãs na China em 1721 e o seu filho Yongzheng ordenou o exílio de todos os missionários para Cantão excepto aqueles que trabalhavam na corte imperial, na sua maioria jesuítas. A partir daí começaram as perseguições aos católicos até que, em 1846, o imperador Daoguang ordenou que todos os estabelecimentos pertencentes anteriormente aos cristãos fossem devolvidos aos seus proprietários e que os oficiais que prendiam cristãos inofensivos fossem julgados.
Depois de ter assinado o Tratado de Tianjin, em 1858, e a Convenção de Pequim de 1860, a China passou a conceder oficialmente a liberdade religiosa por reivindicação francesa, o que fez com que a Igreja Católica crescesse ainda mais na China. Porém, os cristãos chineses e os missionários passaram a estar cada vez mais associados ao imperialismo ocidental e, por isso, eram periodicamente perseguidos e assassinados pelos radicais chineses anti-ocidentais. Este ódio levou à "perseguição dos boxers" (1899-1900), que teve o apoio da imperatriz Dowager Cixi e dos seus aliados conservadores e xenófobos, que culminou com a morte de milhares de leigos chineses, missionários ocidentais e sacerdotes católicos, ortodoxos e protestantes. Muitos dos mártires católicos foram canonizados em conjunto no dia 1 de Outubro de 2000 pelo Papa João Paulo II. Depois da vitória da Aliança das Oito Nações sobre os boxers chineses em 1900, a normalidade voltou às missões cristãs, mas o estigma de que o Cristianismo era uma importação imperialista ocidental continuou a perdurar, como por exemplo na ideologia do Partido Comunista Chinês, que é oficialmente ateu e que passou a ver os católicos como "reaccionários".

Apesar de tudo, a Igreja Católica cresce pujante na China
República Popular da China

A implementação da República Popular da China em 1949, na sequência da vitória do Partido Comunista Chinês sobre o Partido Nacionalista Chinês (Kuomintang), o que levou à fuga dos nacionalistas para a ilha de Taiwan, fez com que todas as religiões passassem a estar fortemente supervisionadas pelo Estado ateu. O Estado comunista determinou que todo o culto católico só seria legal se fosse conduzido pelas igrejas pertencentes à Associação Patriótica Católica Chinesa, uma organização governamental fundada em 1957 e que não aceita a autoridade do Papa, considerado pelos comunistas uma ingerência internacional. Antes disso, em 1951, as autoridades chinesas forçaram a Igreja da China a cortar relações com o Vaticano, subjugando os clérigos ao Estado. Os que se recusaram foram submetidos à opressão, incluindo prisões de vários anos, tortura e martírio. Bispos e padres foram obrigados a trabalhar em empregos degradantes para ganhar a vida e os missionários estrangeiros foram acusados de serem agentes das forças imperialistas, por isso foram expulsos da China.
Vale a pena realçar que, antes da implementação do regime comunista, a China moderna pós-imperial, então denominada República da China - o nome oficial da ilha de Taiwan - foi fundada pelo doutor Sun Yat-sen que se fez baptizar, ainda que como protestante congregacionista, nos Estados Unidos quando estava lá a estudar medicina. Também o seu sucessor no Kuomintang que ele fundou, Chiang Kai-shek, acreditava em Jesus Cristo porque a sua esposa era filha de um pastor calvinista.

As manifestações católicas são controladas pelo Estado
Catolicismo na actualidade

Actualmente, os católicos leais ao Papa, isto é, os verdadeiros católicos, não reconhecem, como não podia deixar de ser, o papel desempenhado pela Associação Patriótica e praticam a sua fé na clandestinidade porque o Governo chinês continua a persegui-los. Estes católicos "clandestinos" organizam-se e formam as chamadas igrejas subterrâneas. Estas igrejas particulares "clandestinas" têm os seus próprios padres e bispos, que reconhecem a autoridade do Papa e que foram ordenados legítima e validamente. Os únicos sítios na República Popular da China onde a Igreja Católica não é perseguida nem controlada são as Regiões Administrativas Especiais de Macau e de Hong Kong, onde a liberdade religiosa é defendida pelos seus textos constitucionais (Lei Básica de Macau e Lei Básica de Hong Kong) e por tratados internacionais (Declaração Conjunta Sino-Portuguesa sobre a questão de Macau e Declaração Conjunta Sino-Britânica sobre a questão de Hong Kong).
Todos esperam agora que o Papa Francisco, apesar de todos os seus defeitos que são imensos, consiga entender-se com o presidente chinês Xi Jinping. Em Agosto passado foi ordenado, pela primeira vez em três anos, um bispo que reúne o consentimento tanto das autoridades comunistas como do Vaticano, D. Joseph Zhang Yinlin, algo visto por muitos como um sinal de abertura e de vontade de haver um entendimento. O Papa Francisco já admitiu que o seu sonho é viajar para a China e tanto o Vaticano como a China já manifestaram interesse em normalizar as relações.

Nossa Senhora de Donglu, Imperatriz da China
Nossa Senhora da China

Existem na China dois santuários marianos muito famosos a nível nacional: Sheshan, em Xangai, e Donglu, em Boading, província de Hebei, a cerca de 140 quilómetros de Pequim. O primeiro é controlado pela Associação Patriótica enquanto que o segundo permanece fiel à Santa Sé, ou seja, pertence à Igreja "clandestina".
Segundo consta, a Virgem Maria terá aparecido no céu de Donglu juntamente com uma multidão de anjos durante a represália anticristã dos boxers em Junho de 1900. Estes cercaram a aldeia, na época com cerca de 700 habitantes, com o intuito de dizimar todos os católicos quando se deu o fenómeno. Aterrorizados, os boxers dispararam inutilmente tiros contra a Virgem Maria e os seus anjos, acabando por fugir em grande debandada. O santuário de Donglu, posteriormente construído pelos habitantes da aldeia como forma de agradecimento por terem sido salvos do perigo, passou desde então a representar o Cristianismo na China e o Papa Pixo XI, em 1932, elevou o santuário à categoria de local oficial de peregrinação. Em 1941, o Papa Pio XII concedeu à Igreja da China uma festa em honra da Maria Medianeira de todas as graças sob o título de Santa Mãe Imperatriz da China.
Já na década de 90 do século passado, em 1996, as autoridades comunistas, incomodadas com o crescimento em devoção e no número de católicos, enviaram 5000 soldados, carros blindados e helicópteros para destruirem o santuário e confiscarem a imagem da Virgem Maria. Donglu tornou-se no berço de 40 dos 120 mártires chineses que foram canonizados. Em 2008, durante a realização dos Jogos Olímpicos de Pequim, a igreja de Donglu acabou por ser destruída também, facto que foi abafado por muito tempo. No entanto, a pintura da Nossa Senhora da China manteve-se intacta, uma vez que a imagem da igreja era apenas uma cópia. O original tinha sido escondido numa parede, atrás da cópia, e foi recuperado em impecável estado, encontrando-se na posse de católicos chineses que, lamentavelmente, continuam o seu trabalho missionário na Igreja das catacumbas, tal como nos tempos do Império Romano quando os cristãos eram perseguidos pelos pagãos. Ainda hoje Donglu, agora uma vila com cerca de 12 mil pessoas, é vigiado por agentes da polícia à paisana que tentam impedir a entrada de peregrinos e também de jornalistas que vão à cidade por causa das aparições de Nossa Senhora. Segundo Joseph Kung, presidente da Fundação Cardeal Kung, uma organização católica de origem chinesa sediada nos Estados Unidos e que ajuda os católicos "clandestinos" na China, até mesmo os habitantes de Donglu correm sérios riscos se forem apanhados a falar com a imprensa sobre isso.

Celebração do Natal em 2013
O futuro do Cristianismo

Para finalizar este artigo, o crescimento do Cristianismo na China está a ser muito rápido. De acordo com Rodney Stark e Xiuhua Wang, autores do livro A Star in the East: The Rise of Christianity in China (Uma Estrela no Oriente: A Ascenção do Cristianismo na China), a visão cristã sobre o futuro, a ciência e o universo dá respostas que as seitas xintoísta, confucionista, budista e taoísta não dão, pois estas centram-se no passado, uma "incongruência cultural" entre a cultura asiática e a modernidade tecnológica e industrial, algo que revela uma carência espiritual que o Cristianismo resolve.
Rodney Stark, um reputado sociólogo e co-director do Instituto de Estudos de Religião da Universidade de Baylor, nos Estados Unidos, defende que as ditas "religiões orientais" (o Cristianismo também é de origem oriental, diga-se de passagem...) são anti-progressistas e proclamam que o mundo está decadente por se afastar de um passado glorioso, caminhando para trás e não para a frente: "Nenhum deles admite que nós somos capazes de perceber algo sobre o universo - é algo sobre o qual nós temos de meditar, não sobre o qual mostramos uma teoria, como fazem os físicos. Isto não está de acordo com o mundo no qual os chineses vivem no seu dia-a-dia".
Os chineses que se convertem ao Cristianismo vivem em regra nas cidades e sobretudo através das redes sociais, sendo por isso "invisível" ao governo. Entre eles há também intelectuais chineses: estes "estão seguros de que devem olhar para o Ocidente para compreender o mundo no qual vivemos. As religiões orientais não encaixam no mundo moderno actual e por isso é necessário olhar para o Ocidente para encontrar filosofias e religiões que assim o façam. Isto é algo muito interessante". Stark salientou também que o número de cristãos na China nunca parou de aumentar, nem mesmo durante a tirania de Mao Tsé-tung. Segundo o Pew Research Center, em 2010 existiam na China 9 milhões de católicos, um número que não passa de uma estimativa porque de certeza que não estarão aí contabilizados os católicos "clandestinos" fiéis ao Vaticano (existem possivelmente cerca de 12 milhões de católicos chineses ao todo).
Apesar da maioria dos chineses que crêem em Jesus Cristo ser protestante, o Catolicismo é juntamente com o islão as religiões que mais crescem entre os jovens com menos de 30 anos, confirmou um censo conduzido pela Universidade Renmin da China no ano passado. Dentro de poucas décadas, a China poderá, caso as tendências se mantenham, tornar-se no maior país cristão do mundo. E esta, hem?

4 comentários:

Lura do Grilo disse...

Muito interessante. Será que o Papa Xico se vergará ao poder chinês ou manterá a autoridade da Igreja de ela própria nomear os seus bispos?

FireHead disse...

Se eles conseguirem chegar a um acordo significa que o governo comunista terá de abdicar da Associação Patriótica. Ou seja, esta terá que se extinguir.

Adilson disse...

Essa postagem de hoje é simplesmente fantástica! Vou ser obrigado a publicá-la no Agathon! Tocou-me a alma! Sempre quis encontrar um texto curto sobre a história da Igreja na China. Eu acredito que há muitas e muitas informações sobre a presença católica naquele país que até hoje não chegaram completamente até nós. Nós, brasileiros, sabemos tão pouco sobre o catolicismo na China! Há tantas perguntas que precisam ser respondidas sobre os cristãos ali. Infelizmente ainda não vi, ao menos aqui no Brasil, uma história da Igreja Católica na China em nossa língua, o que é muito muito triste. É um vácuo na educação católica de crianças e adultos.

Li em uma fonte que o catolicismo na China realmente passou por severas e terríveis provações com o advento do protestantismo, o que se agravou ainda mais com o advento e ascensão comunismo.

Que Nossa Senhora ampare e fortaleça a Igreja na China; que o Imaculado Coração e o Sagrado Coração realize grandes milagres entre seus filhos chineses! Salve o povo a Igreja chinesa!

FireHead disse...

Tu podes encontrar muitas informações úteis sobre isso através da Fundação Cardeal Kung. :)